segunda-feira, 8 de abril de 2013

Essência

Perder a essência. Eis um medo que era constante na minha vida. Não apenas em mim, mas naqueles que me circundam (ou circundavam).

Eu era extremamente apegado às essências das pessoas. Ora, é a essência que fazia a pessoa. Era a sua personalidade, era o seu ser, o seu jeito de aparecer ao mundo. E eu era parte desse mundo. Se a essência fosse um odor ou uma comida eu era o seu maior crítico. Experimentei muitas essências por aí, muitas não apelavam ao meu gosto, mas muitas eram caras para mim.

Aí elas se foram. Como o odor de flores que se esvai com o tempo quando da natureza elas são retiradas. Como aquela brisa leve depois de uma caminhada cansativa que nos toca as têmporas e depois vai embora sem pedir por favor.

Perderam-se muitas das minhas caras essências. Uma amiga que fazia piadas deixou de fazê-las, um amigo que desenhava qualquer coisa não mais o faz. Uma irmã que cantava a voz se esvaiu. Um certo eu que era artista silenciou-se abruptamente.

Anteontem, porém, na escuridão e no conforto da hora de dormir de meu sobrinho pequeno ouço a esperança. Ouço algo familiar e novo, um canto manso, uma essência que não se foi. Olho para o lado e lá está minha irmã acalmando o neném com a sua voz - a mesma voz de sempre - transmutada de modo situacional. Veio-me um calor no coração talvez de todas as essências do mundo, como se todas voltassem para mim retrabalhadas. E com isso, esperança para mim.

Eis que não se perde a essência, então, eu suponho. E como dizia nosso pai, em paráfrase de um grande líder, "há de se endurecer, mas perder a ternura jamais".



terça-feira, 26 de março de 2013

Feliz e contente

Essa frase é clássica. Um jargão, praticamente. "Estou feliz e contente".

Muitos aprendem na escola que feliz e contente são sinônimos. Então seria esse jargão uma redundância? Ora, se está feliz, logo está contente, e pronto, acabou. Não precisa dos dois.

Só que não é bem assim. Feliz é uma coisa, contente é outra. Podem ser similares, mas muitas vezes há oceanos de diferença entre eles.

Feliz é da felicidade, é de estar radiante, alegre, sorrindo porque algo bom aconteceu. E algo bom é algo que na nossa ideia faz bem para a nossa alma, o nosso ser. Felicidade é, para muitos, um objetivo, um troféu adquirido quando um desafio é vencido. Para outros, felicidade é uma consequência dos seus atos positivos, morais.

Contente não, contente vem de contentamento, de ter recebido algo que é o suficiente para determinado fim.   Não necessariamente é um sentimento positivo, é apenas uma dedução. Joãozinho está contente porque ele passou de ano. Ele estaria feliz se tivesse passado com a nota máxima, mas como tirou a nota mínima para passar de ano, está contente.

Está contentado, está acomodado (e não incomodado), está - talvez - estático, inerte.

Não consigo não imaginar que uma pessoa inerte esteja apenas esperando que algo aconteça. "Seja mais você", "a vida é sua, dê um jeito nela", "tome as rédeas da sua vida", "seja dono do seu próprio nariz", "faça acontecer", nenhuma dessas frases tem efeito com quem está contente. Elas são a nota máxima, não a média. A média contenta.

Desacredito e desaprovo das torcidas. De que nascemos e morremos sozinhos. Meu jogo se joga junto, basta todos querermos.

Jogar só contenta. Jogar junto é a felicidade.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Da rebeldia

Vou faltar aula, sem peso
Vou negligenciar os trabalhos, as pessoas
Vou jogar até que me sangrem os dedos
Vou dormir para passar o tempo.

Vou perder tempo,
Vou conversar a fio,
Vou pisar no cháo frio,
Vou ficar no relento.

Vou ser nada.
Jogar tudo pro alto
Vou ligar o foda-se
Vou descer do salto.

Que diferença faz, afinal?
Já que não sou eu o dono da minha dignidade.

Parafraseio Augusto dos Anjos, que seja:
"Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"

quinta-feira, 29 de março de 2012

Limpeza escura

Limpeza clara cobra valor. Quando está limpo, afinal, qualquer grão é lama. Onde é que há mérito em sua manutenção, se a limpeza é obrigatória?

Não há valorização.

Chega uma hora que mesmo limpo, fica tudo escuro. Escuridão não é sujeira, é ausência de luz. Ausência de brilho. Chega uma hora que mesmo limpo você se acostuma a não brilhar. Tudo, portanto, se escurece.

No escuro se inexiste.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Dom

Eu não poderia ser médico.

Seis anos de faculdade, um de clínica geral, mais sei lá quantos de residência. Fora todos os plantões, estágios, pós-graduações, convenções e congressos. Enfim. Há muito o que se fazer e estudar quando se quer ser médico.

Mas não é por isso que eu não seria médico. É porque eu não tenho o dom.

Ora, afinal. Eu só sou artista porque eu tenho "o dom". As pessoas vivem dizendo isso. "Ah, eu não tenho esse dom". Todos os desenhistas são providos de uma luz na hora do seu nascimento, um toque divino.

Não acredito nessa baboseira não. Toda criança desenha. Ou quase toda. Todas que eu conheço, pelo menos. A diferença é que algumas perdem o interesse e outras não.

Desvencilhe-se dessa etiqueta. "Dom" é sinônimo de desmérito.

Disso estou certo. Não tenho 'dom' para desenhar. Só prazer e um punhado de prática.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Em partes

Não há símbolo que me defina, nem palavra.
Ninguém pode resumir um ser.

Não sou só, sou em partes.

Sou metade isso, metade aquilo.
E da subdivisão disso e daquilo.
Sou um certo tudo. Mau e bom e o entremeio.

Vivo, morto e o entremeio.
A complexidade.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sereno


Ar que me ama
Que me falta
Às vezes é vento que bombeia o coração

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Transparência

Eu não gosto de guache porque é muito opaco. Ele não deixa aparecer o branco do papel por baixo. É 8 ou 80. Vc tem que ter muita certeza de que é aquilo ali que vc quer.

Aquarela não. Com ela vc pode lentamente ir ajustando a cor para ela se tornar aquilo que vc quer. E as vezes ela acaba vazando pra um lado que vc não estava esperando, criando toda uma diferença, induzindo o artista a pensar por um outro lado.

Acho que a vida deveria ser mais assim também.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ensaio sobre a Bebida

Pode chamar de preconceito. Ser anti-preconceito é ordinário.

Lembro-me de quando jogava Super Mario no meu saudoso SNES e, em meio à confusão e o caos de monstros e blocos e quedas mortais aparecia a salvadora da pátria. A estrelinha que nos deixava invencível. A sensação de alívio e coragem que ela proporcionava. A factual invencibilidade.

Sob o seu efeito podíamos tudo.

Pois bem. Essa estrelinha existe no mundo real. Em diferentes níveis. Eu diria alucinógenos, mas conotaria drogas ilícitas. Não é isso que eu quero. Quero drogas lícitas, mas em especial o álcool. Porque fumar vicia, mas não é estrelinha.

O álcool é a estrelinha. Sob seu efeito podemos tudo. Somos mais corajosos, falamos o que pensamos sem ligar para as consequências. Somos sensíveis, somos até artísticos. Vomitamos produtividade. Em níveis mais altos vomitamos comida mesmo.

Mas é claro, álcool é igual Justin Bieber, Anime, Metal, Sertanejo e Religião. Em níveis amenos, só alegria. Em níveis fanáticos os problemas se iniciam. Como dizia um grande professor, "o problema são os fãs do Ed Motta". Beber até cair é até aceitável, mas a apologia que se sucede do mau uso da bebida é tão infantil quanto o proprio mau uso. Ora, tudo em excesso é prejudicial. Até saúde. Até amor. Até paz.

Porque o que se inicia em boemia, nas festas, cervejadas, calouradas, chopadas, micaretas, até serenatas e serestas como antigamente, acaba mal. De verdade. Talvez não hoje, talvez daqui a vinte anos. Talvez não para os usuários, mas para seus filhos e até netos.

Convenhamos, não é confortável perceber uma alteração clara de comportamento numa pessoa que é uma base para você. Um exemplo. Mesmo que inicialmente para melhor, com o tempo o sentido se esvai e só sobra um casco de opinião caótico e necessitado. Aquela tentativa de suceder naquilo que sóbrio se falha. Fazer da autoridade de pai um reinado, espancar a esposa, espancar os filhos. Jogar a cadeira na televisão, ora, que forma mais efetiva de se provar um ponto. Que sensatez! Que maturidade!

Fora a auto-condenação. Obrigar os filhos a compactuar com isso, a aceitar isso. A ver sempre aquele copo de whisky na geladeira, ou as latinhas ainda frescas que serão consumidas vorazmente. Obrigá-los a ver os resquícios do vômito, numa demoníaca alquimia de cigarro e bebida. Obrigá-los a lidar com o eterno fantasma da doença e da morte rondando na esquina. Esperando com sua foice pelo momento oportuno para fazer valer toda a insensatez de uma vida desregrada.

Não é confortavel, enfim, obrigar os filhos a lidar com sua morte prematura, regada por esse elixir de corrupção que tantos colocam num patamar quase divino. E o luto que se sucede.

Não. Eu não acho que todo o preconceito seja ruim. É, sim, quando invade a liberdade dos outros. A partir do momento que ele deixa de ser preconceito e se transforma em auto-preservação, existe verdade.

Diante desse trilho condenado em que vejo muitos de quem gosto, só posso desejar.

Bebida é uma coisa muito boa. Com certeza.

Mas limite também é.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A Coroa de Ferro

De onde se sentava não podia enxergar o que viria pela frente. Olhou para o lado. A janela estava fechada e a noite escura. De modo que seu reflexo era muito visível. Em meio aos cabelos emaranhados lá estava ela. Fosca, arranhada, enferrujada. Chamavam-na ‘faixa’. Para os menos conhecidos talvez até ‘chapéu’ funcionasse. Para ele não. Para ele era uma coroa.

Riu para si mesmo. Metalinguístico? Olhou para baixo, para as pernas sobre as quais repousava a bolsa. Depois olhou para frente. Perguntou-se “onde diabos estou indo?".

A resposta era simples. Embora.

O lugar cheirava a cano antigo. Daqueles que sentimos o gosto quando lavamos o rosto numa casa velha. Metálico, coça o nariz. Talvez viesse não do chão ou dos mecanismos em volta de si, que o moviam. Talvez viesse da coroa.

Ao olhar para o outro lado sem razão ocorreu que não sabia a razao pela qual olhava para todos os lados. Que janela inútil. Que bolsa inútil. Ora, que metalinguagem inútil, então, também. Onde você espera chegar com isso?

Mas a resposta é sempre simples.

Imediatamente um cutucão lhe chamou a atenção. Era um ser pequeno, do tamanho de um anão, mas magrelo. O rosto era o de um senhor magro e idoso, de nariz long, recurvado. Um cabelo curto, sedoso e cansado percorria toda a extensão do couro cabeludo até a nuca. A pele azul era poucos tons mais clara que a calça jeans rasgada que vestia e, sem camisa, marcas púrpura percorriam toda a extensão do seu corpo até chegar nas costas onde retraído estava um par de asas. O ser puxou o cinto de segurança. Olhou para cima e cumprimentou o humano de olhos estatelados.

“Boa noite, Keib”, disse sorridente

Que diabos? Perguntou-se. Olhou para frente porque estava tendo uma ilusão. Não havia ninguém ao seu lado.

“Vá se foder”, disse o diabrete ainda sorridente. “E traga-me um pedaço de limão. Quem nasceu no ar precisa ter o hálito agridoce!”

Ele ignorou novamente.

“Keib, preste atenção… você me vê e me ouve. Eu estou aqui e estou falando. Isso quer dizer que eu existo. E mesmo se eu não estivesse fisicamente sentado nessa cadeira, usando uma merdinha de uma calça jeans rasgada que aquele filho de uma vadia me vendeu por duzentos reais, eu ainda existiria. Simplesmente pelo fato de que você me vê e me ouve”.

“Mas isso não significa que você seja real. Os esquizofrênicos também enxergam gente que não existe”, replicou.

“Então por que é que você está conversando comigo?”

“Estou falando isso mais para mim, mesmo”.

Nessa mesma hora sentiu um peso no coração. Conhecia aquele papo. Aquela sensação. Até talvez aqueles argumentos. Era tudo muito familiar. Era por isso que estava onde estava. Era essa a razão de estar com uma faixa de ferro a lhe apertar as têmporas.

“Por que você está usando fones?”, perguntou o diabrete. Os fones não tocavam musica alguma. Nem sequer estavam ligadas a algo, mais. O fio percorria todo o caminho para dentro de um bolso que agora já estava vazio. Sem responder mas assim respondendo, tirou os fones, enrolou-os e os guardou no mesmo bolso que estava vazio. Agora eram parte do passado.

“É por isso que você está indo embora, não é?”, perguntou o diabrete, já sabendo a resposta.

Sim. Era por isso e por muitos outros motivos que não lhe vinham a mente. “Também, mas isso é metalinguístico. Você pode inferir. Como você se chama?”.

“Caos”, respondeu o diabrete. “Meu nome é Caos”, completou. “E vai ficar tudo bem”.

Keib olhou para ele por alguns segundos. Depois assentiu, recostou a cabeça e fechou os olhos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O que é amor

“Frase grande, sim, eu sei. A resposta, porém, tem um penacho menor. Afinal, eu estou cansada de mente-colméia, consciência coletiva, ou o que eu mais tarde conheci, Hollywood. Estou cansada de pessoas que constantemente agem como se estivessem num blockbuster americano.

Eu vim a este mundo muito tarde. Não tive tempo para me adaptar. As regras aqui são diferentes. Os seres humanos falam demais e ouvem de menos. De modo que eventualmente eu me vi em um dilema ao me perguntarem "o que é amor?".

Então, considerando toda a minha vivência no meu mundo e desconhecimento desse mundo novo respondi o que seria a resposta mais óbvia, mas também a mais correta. Amor é uma palavra.

Ora, uma palavra? Isso eu sei. Tudo são palavras, ouvi. Mas amor é só uma palavra, nada mais. Hoje entendo a careta que montou meu interlocutor em seu rosto logo antes de perguntar "mas o que significa essa palavra?". Novamente, o que me veio a mente e posteriormente à voz, foi o mais objetivo. Mas a esse ponto já estava começando a se tornar uma resposta. Amor é uma palavra que não significa nada.

Alguns humanos sentem um rastilho incandescendo as veias como se fosse magma que os habitasse quando ouvem coisa assim. Mas a presença de dois ouvidos é para detectar predadores: seriam necessários dois cérebros.

A palavra amor é apenas um veículo. Uma caixa vazia e sortida. Cada um tem uma caixinha diferente que insiste em chamar de amor. A de alguns é grande, a de outros é azul, a de outros está escondida. Mas existe. Dentro desta caixinha são colocados sonhos e expectativas. Infelizmente, as coisas não são tão lindas. Há uma tendência vil de se colocarem conceitos dentro dessa caixa. É aí que surgem os desentendimentos, os males do mundo, se você quiser.

Entenda, nem todos colocam as mesmas expectativas dentro da caixa. Mas ninguém imediatamente sabe o que esta dentro da caixa do outro. Costuma-se perguntar para saber. Também pesquisar para descobrir. Mas outras pessoas simplesmente desconsideram o que é pessoal para o seu próximo, desrespeitam a caixa do outro e o julgam pelo conteúdo não ser igual ao seu. Aí temos guerras. Pequenas, de relacionamento. Grandes, mundiais.

Ainda há quem não se desvencilhe do hollywoodiano, quem tente encontrar um denominador comum entre o conteúdo de todas as caixas e confeccionar uma verdade universal e incontestável. Mas o cru é isto. A própria sabedoria humana sugere que cada um sabe a cruz que carrega. No fundo você sabe que a sua caixinha é diferente da do seu próximo. Você quer isso, cada vez mais.

Se não por essa característica, nao teria eu me apaixonado pela raça humana. Nenhuma espécie pôde até hoje ser autoral a esse nível. O ser humano consegue ser poético dentro e fora do senso comum. Ao mesmo tempo objetivo e metafórico. Racional e emocional.

Afinal, pensando bem, sabendo que é cérebro, não se chamam essas caixas coração?”
-- Achasia

Location:R. Ceará,Belo Horizonte,Brasil

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A storm is coming

I can feel it.

When the sky is gray and stormclouds gather. When the wind is chilly and its very cry is that of pain and suffering. A cry that breaks a cold, hesitating silence.

And I know I am in the middle of all this. I have created all this. There is no fervour, no honour, in this hour. This is the deep breath before the plunging. I’m left only to wait and wish.

If there still remains a Father to run to I can only wish for it to be quick and done for. I pledge myself to the Hammer as I have since the beggining. If guilty, I am up for my pennance. But please have mercy upon those who are no direct harm. Let the weak live.

In the end, I can only be sorry. ‘Tis not the weather itself that kills me. It is the death it brings to those who cannot find the strength to remain by my side. Let the Hammer strike. Let judgement come.

A storm is coming. I must be prepared.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pequenez

Num jardim de rosas
As flores mais lindas
São as ervas mudas sem espinho

Quando olho para o céu
não vejo esplendor no azul ou no branco
Mas no pequeno preto
que sei ser um pássaro

E no que ele descende, de vento no rosto
Sei que é para mim, formiga, que ele olha
em meio ao verde enfadonho do chão

Onde há amor não há pequenez.

Leon Werneck,
07/02/2011

Para Júlia, minha eterna pequena

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Do desencanto

Se você concorda que sonhos são coisas boas, por lógica não pode querer que eles se realizem. A realidade é dura e, na maioria das vezes, sujeita à queda na rotina. A rotina, a despeito do quão boa, acaba por estragar as relações, mecanizando-as.

Às vezes os sonhos só existem para mover a nossa vida. Dar-nos uma falsa sensação de ter algo pra correr atrás. Nem sempre ilusões são ruins. Às vezes aquela deusa que mora no andar de cima só pode ser uma deusa quando você não a conhece. Quando você a conhece, ela se torna corriqueira, ou pior, amiga.

Entenda, a unica coisa que faz seu amor platônico amável é o fato de ele ser platônico. É pior quando vocês tem contato e aí você se certifica de que ele realmente não quer nada com vc e que o fato de ele não te dar a mínima bola é deliberado.

E quando isso acontece, você fica sem amor real e sem amor platônico. É só um vazio no lugar onde vagou um sonho outrora.

Bah. Amor é a desculpa do ser humano para ter sexo recorrente. Quem precisa de sonhos?

domingo, 12 de setembro de 2010

Das adorações

Existem coisas que me irritam. Meter o dedinho na quina de um móvel me irrita. Barulho em demasia, gente em demasia. Já fui mais tolerante: música ruim me irrita.

Já fui mais político, mais comunista, menos velho.

Hoje me irrito com coisas menores, mas não menos mordazes. De tudo mais, talvez, me irritam adorações. Mais do que barulho, multidão e Axé. (Axé está essenciamente ligado à barulho e mulditão, então acabo achando isso redundante).

Talvez o momento não me permita pesar bem minhas irritações, mas nesse pequeno átimo que talvez não perdure, irrito-me com crentes. Irrito-me com gamers e playboys. Irrito-me sumariamente com “machinhos”.

Ma.chi.nho
adj.s.m. pop. pej. 1.da união de ‘macho’, –inho; “pequeno homem”. 2. Que ou aquele que se comporta de forma padrão pré-estabelecida (porém não necessariamente moral. v. ‘cultura de massa’). 3. Que ou aquele que se comporta baseando-se no pensamento de outrem. 4. Inculto. 5. Depr. Aquele que vangloria sobre todas as coisas isto: Mulheres, futebol, bebida álcoolica, carros e veículos, brigas. 6. Dotado de comportamento tribal.

De palavras sobre o fanatismo religioso o mundo já está cheio. Até sobre política, também. Mas o quadrilátero mulher, futebol, álcool e carros é decisivo e pouquíssimo explorado.

Quão insuportável é o indivíduo que, no meio de uma conversa – às vezes até no meio de uma frase – pára. Passa uma mulher. O homem a devora com os olhos. Percorre as curvas do corpo da fêmea babando como um cão sarnento jogado à sarjeta chuovsa de uma padaria, desejando sem sorte aquele último pedaço de pão mofado. Depois, como que reunindo todo o seu orgulho perante os outros de sua laia, vocaliza em bom tom: “MAS QUE BELO PAR DE COXAS”.

Entenda, eu, como artista, estou fadado a ver a estética de um par de coxas. Mas em verdade o grito do desamparado machinho é uma súplica. O par de coxas pode até não ter sido tão homericamente devorável. Mas o grito se fez inevitavelmente necessário porque existe ali uma batalha social entre todos os machinhos para ver quem é que é superior. Quem é que “pega mais”. Quem é mais macho. De modo que cada ímpeto de testosterona é uma chifrada vigorosa que um cervo desesperado por sua fêmea tenta investir contra o outro. Se o comentário pouquissimo sutil não existir, então certamente o machinho em questão não se interessa por pares de coxas femininos. Ou pelo menos, é esta a sua fé.

E o futebol? Novamente, imagine-se em meio a uma conversa quando aparentemente durante um jogo ouve-se uma voz ao longe que esguela algo praticamente ininteligível. Pela melodia do grito trata-se de futebol. A palavra é o nome do proprio time. O brado, aparentemente, foi por um gol, o que nem sempre é o caso. Às vezes grita-se só por gritar. Para incomodar os vizinhos do outro time. Não ter time é uma blasfêmia. Sua conversa é interrompida por um rugido animalesco, um piado, um canto que puxa outros de outras janelas não muito mais distantes. Logo vê-se um coral de gritos semi-elaborados entoando um mantra completamente ilógico. Por dentro do time que é nomeado à janela, nas entrelinhas, existe a frase pejorativa que diz “meu time é melhor do que o seu”.

E o comportamento tribal é ainda mais intensificado quando a conversa é durante um jogo. Sentam-se machinhos ao sofá, bebendo a sua cerveja, comendo o seu churrasco ou qualquer outra coisa gordurosa que terá de ser limpa não por eles outra hora. Aparentemente comportados, sociais e polidos. Guerreando polidamente sobre quem sabe mais sobre futebol. Trazendo à tona eventos de um futebol em preto e branco da tão vangloriada copa de setenta ou qualquer coisa do tipo. Isso sempre tem.

Eis que o locutor anuncia o gol. E os machinhos como que num turbilhão epilético de furor saltam das suas cascas cívicas como chimpanzés enlouquecidos por qualquer banana a eles lançada, a testosterona espirrando junto à cerveja, o suor e a gordura. Bebês choram ao serem avassalados pelos rugidos ensurdecedores iluminados pelo verde do replay na televisão.

Existe uma mágica no futebol. Sim. O jogo é guerra, é estratégia. É fabuloso. Os animais que o assistem é que não são.

Não quero falar sobre os carros e as bebidas e as brigas e tudo mais. O raciocínio é o mesmo para todas essas questões. E eu, como homem, envergonho-me do comportamento dos meus semelhantes. Aparto-me, talvez não por opção: a guerra dos sexos não se aplica a mim. Tenho de mulher a sensibilidade e o carisma e de homem o labor pela hierarquia. A vontade de ser sempre alfa.

Já sou velho e intolerante. Irrito-me, sim, com as adorações mundanas dos machinhos. Que se faça, pois, justiça. Se é que afinal de contas a luz é ser comum, e a vanguarda escuridão, que não só me irritem as convicções masculinas, mas também as minhas a eles ensurdeçam.

domingo, 15 de agosto de 2010

Religiosidade cientificista

“Saudações”, ouvi enquanto andava. Olhei para um lado. Olhei para o outro. Não havia ninguem na rua. Só eu e as árvores. Pensei por alguns instantes que as árvores falavam, mas era tolo demais. Prossegui.

“Nós somos tudo”, ouvi novamente. Parei. Eu não estava ficando louco nem surdo. A voz que falava comigo não tinha som. Não vinha de fora. De alguma maneira inexplicável, vinha de dentro e eu podia ouví-la de longe e de perto, dos próprios poros da terra e dos meus. Estanquei.

“Quem é você?'”, perguntei atônito.

“Nós somos tudo”, repetiu. Não era uma voz, eram muitas, mas era uma só. Um uníssono destoante e ainda assim perfeitamente harmonioso.

“Pare de falar em enigmas. Já estou farto dos eventos que me circundam para isso”.

“Nós somos a vida. Uma raça qualquer como os seres humanos, os cães, os insetos e as plantas.”

“Uma raça alienígena?”

“Uma raça. Raças de fora da Terra ou de dentro. Tudo são espécies”.

“Nunca conheci uma raça que eu não pudesse ver, ou que se pudesse comunicar comigo sem ser humana”.

“Você não conhece tudo.”

“É verdade. Mas mesmo assim, posso estar louco. Não estou vendo vocês. Nem sentindo seu cheiro ou o seu calor. Se eu abanar minha mão na minha frente só sentirei o ar. Você não é o ar. Não é matéria”.

“Você não conhece toda a matéria. Sua tabela periódica é faltosa. Tem buracos de elementos que existem, mas incompreensíveis pela capacidade humana por enquanto. Somos uma massa de seres, um campo de energia invisivel e imensurável, por enquanto”

“Uma espécie tem indivíduos. Estou falando com um ser só?”

“Sim. E não. Nós somos muitos, mas somos um. Como formigas, abelhas e sua consciência coletiva.”

“Em que plano vocês estão? Tempo-espaço? Outras dimensões?”

“O tempo e o espaço são medidas relativas criada pelos homens para resolver os problemas dos homens. Nós não somos os homens. Não somente. Para nós, é tudo diferente. Existimos, mas estamos fora da compreensão humana, por enquanto”.

“Se é assim, por que entrar em contato conosco?”

“Porque tudo se liga. As estrelas no espaço, uma folha de árvore que cai ao seu lado. ‘Uma borboleta batendo suas asas’, se assim você preferir. Tudo faz parte de uma complexa máquina ligada uma com a outra. Dinâmica em sua ordem, mas estática e definida no seu próprio caos. O destino é tão aleatório quanto o acaso é pré-definido. O universo entre destino e acaso é tão vasto que a mente humana só é capaz de assimilar um ou outro. Nós somos todo o resto.”

“É verdade. Eu estou constantemente perdido se devo acreditar em destino ou acaso”.

“Aceite também o universo entre eles. Aceite a nós”.

“Vocês não responderam muito bem a minha pergunta. Que tipo de influência vocês têm sobre nós?”

“Nós estamos em todos os lugares, em cada célula, em cada partícula. Nosso movimento influencia o seu e, portanto, nosso poder é absoluto sobre vocês.”

“Então minhas escolhas não são minhas, são suas”.

“Se você e nós não formos um só, sim. Se você e nós estivermos conectados, em harmonia e em paz, então isso não faz diferença.”

Então, numa trovejada de esclarecimento, vi que tudo aquilo que aquela voz dizia, enfim, era familiar aos meus ouvidos. Comecei a sentir aquela raça misteriosa. Sentí-la em cada poro do meu corpo. Sentí-la em cada poro da Terra. Então entendi.

Estava afoito e indescritivelmente feliz. Ao que tudo fez sentido, precisei da pergunta – e da resposta resposta - cardeal.

“Quem é você afinal? E quem sou eu?”

“Eu sou Deus, e Jesus. O Pai, o Filho e o Espírito Santo. E você é o meu fillho”.

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Pelo menos, é assim que eu penso. Sempre gostei de ficção-científica. Muito do que era o cinema agora é a realidade. Por que não isso também?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobre ser diferente

Sempre achei bobeira quando o dizem. “Sou diferente”. É claro. Seu nariz é maior ou menor que o dos outros. Seu jeito de pegar no lápis e de cortar a carne.

Mas ao mesmo tempo, passei minha vida toda brigando contra o padrão. Tenho dúvidas se segui um padrão ao fazê-lo. Adolescentes, de um modo geral, podem ser muito hipócritas e paradoxais. Estou certo de que fui. Talvez ainda o seja.

Qual é o limite da unicidade? Será o mesmo limite da normalidade? Será que, para uma pessoa ser única ela deve ser anormal? Ou será que ser anormal é apenas mais uma faceta da diferença dos seres humanos?

Hoje, numa conversa, senti que talvez tenha ultrapassado alguns limites. Seriam esses limites da minha unicidae e, portanto,  limites da sanidade humana? Fui mal interpretado. Recebi um ralho. Uma frase que eu não gostaria de ter ouvido.

E olhem só. Cá estou eu novamente respondendo para o nada enquanto emudeci diante de alguém. É meu direito. Vou responder.

Vou responder pedindo desculpas. Não sou comum. Não sigo o padrão. Em muitos casos, nem mesmo o padrão do socialmente aceitável. Não sei se é por ser avant’garde. Sempre gostei de divergir, de experimentar, de ser excêntrico. Nunca tive problema com isso. As pessoas que se danem. Mas de inaceitação em inaceitação, as pessoas se vão indo. No final das contas restam alguns contatos tortos de internet. Alguns cumprimentos no meio da rua.

Moldar seu círculo social baseado em pessoas que te aceitem, no fim das contas, pode estar se mostrando inefetivo. Ninguem está dentro de mim. Ninguém vai ver como eu vejo, sentir como eu sinto. Comunicação, descubro, vai se tornando cada vez mais obsoleta. A arte, a expressão, o estímulo de uma experiência estética, é a única alternativa. Mas é abstrata. Para que uma pessoa sinta as coisas como eu as sinto, veja as coisas como eu as vejo e compreenda exatamente o que eu quero expor, ela precisa ter tido as mesmas experiências que eu tive. Isso não é fácil. As experiencias variam muito de pessoa para pessoa.

E voltamos à nossa unicidade.

Sou uma pessoa de experimentos. Vivo supondo e testando. Imaginando a reação das pessoas, colocando-as à prova. Ultimamente, minha premissa foi ser aberto. Na minha cabeça, ser aberto sobre aquilo que eu penso, sobre aquilo que eu gosto. Explicar o que me leva a pensar o que eu penso e gostar do que eu gosto. Ser franco, ser transparente.

É falho. Como seus ouvintes não têm o mesmo background que você, não viveram as mesmas experiências que você, eles tenderão a generalizar. Vão matar a sua unicidade. Vão transformá-lo num modelo pré-definido de tudo aquilo que ele são condicionados a acreditar como bom e verdadeiro. Farão um cristal lapidado e polido parecer uma rocha – talvez com um ou dois espacinhos brilhantes.

De fato, é besteira pensar que você não é único. Você é. Todos são. De forma similar, não é motivo de alarde que você seja diferente. Não seja pretensioso. Mas ainda assim, o limite que eu sabia existir, é mais restrito do que eu julgava anteriormente.

Destôo, mas não mais com graça e orgulho.

No final, não tenho certeza se sou cinzento demais para um mundo com muitas cores, ou se sou colorido demais num mundo gris e enfadonho.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Inspiração

Esses dias tenho pensado muito nisso. Ouço muito a frase “você é um artista”. As pessoas não consideram uma constatação (aquele que trabalha com arte), mas um elogio. De modo que a frase se torna prazeirosa. Gosto de ouvir que sou um artista. Sou mesmo, trabalho com arte, vivo com arte, sou arte.

Ao elogiar, porém, as pessoas se enganam que isso seja bom. Nada é absolutamente bom. Só que ser artista possui um lado ruim extremamente trágico que se chama Inspiração.

Não me leve a mal. Não estou tentando ser determinsta. Aliás, pelo contrário. Estou especulando, analisando, supondo.

Já fui de tudo. Ano passado fui organizado e metódico e calculista. Já tive horários. Independente deles, fiz coisas às avessas. Não trabalhei no horário de trabalho para trabalhar de madrugada. Fiz trabalhos de faculdade dois minutos antes da aula (o que é diferente de fazer dever de geografia dois minutos antes da aula). Já joguei durante a aula e já estudei em casa na tranquilidade.

Sou uma coleção de incoerências que se ordena de alguma forma caótica. Sou artístico. Sou todo inspiração.

De que vale, afinal, usar seu tempo em blocos, potencializá-lo? Já fui da opinião de que as pessoas devem organizar seu tempo para que possam dar conta de fazer o que elas devem fazer. Contradigo-me. Será mesmo essa a verdade? É muito fácil ser responsável na coleira. Será mesmo que, tendo a certeza de que o compromisso será cumprido até a data que ele deve ser cumprido, não seria melhor que ele seja feito na horá em que a inspiração gritar?

É claro que isso não se aplica a tudo. Planejamento, até certo ponto, é bom. Essencial, em alguns casos. Mas sempre? Com tudo? Virginianos, por favor! Como posso cobrar que me libertem se a chave da minha cela está comigo?

Estou perdido novamente nesse atrito harmônico entre caos e ordem. Tenho amigos deliberadamente do caos, e amigos deliberadamente da ordem. Que diabos sou eu, meu Deus.

Por que é que há coisas em que o equilíbrio é sua própria ausência?